
Querida Amélie,
O verde das árvores contra o céu azul do outono. As silhuetas das pessoas pela cidade que passa veloz. Dois ou três olhares femininos contra o meu, absorto. Meus pensamentos, meus pesos e medidas, minha vida de adulto. Tento não pensar, num esforço de estar presente sentindo a vida em mim e o movimento ao meu redor. Sem que eu tenha controle, algumas lágrimas elegantes rolam pelo meu rosto cansado. Os pensamentos voltam e são como uma turbina de avião decolando. Eu me dou conta do quanto estou só. A vida continua a passar pela janela do ônibus, mas sinto como se estivesse num outro plano. Passo a observar tudo com a máxima atenção. As coisas ganham uma dimensão inesperada, como se uma lente de aumento fosse colocada sobre cada uma delas. Os detalhes sobre os quais se passa despercebido passam a ter muita importância num momento como este: a ruga da senhora sentada ao lado, o desleixo de um adolescente que se levanta, um pequenino inseto que se debate contra a lâmpada suja, uma ranhura no metal onde se lê uma declaração de amor. Coisas mínimas, particulares, universais que dão mais sentido ao instante e trazem mais alegria à vida. Um sorriso nasce no meu rosto como a flor de Drummond nasceu no asfalto ou como o beijo (des)velado de Magritte, ou ainda como a história que será escrita um dia:
"Ele não sabia sobre qual hortaliça sua mão cairia, da mesma forma que ignorava a razão de estar ali, diante daquela barraca colorida de frutas, já que não precisava de nada daquilo. Talvez por desejar estar ao lado daquela desconhecida que era a mais bonita entre todas que já tinha visto ou talvez por uma vontade do acaso que o fez enxergá-la entre os prédios da cidade. Não importava muito, porque estavam ali, lado a lado, e ele podia sentir o perfume dela se sobrepondo ao das frutas maduras. Displecentemente, permitiu-se apanhar uma pêra estragada, sendo imediatamente interrompido pelo toque suave dela que já escolhia uma fruta boa. Nesse instante mínimo, seus sorrisos compartilharam a possibilidade de uma vida juntos."

10 comentários:
É estranho morar em um mundo que apenas nós conhecemos e que não fica em outra dimensão, fica aqui mesmo.
Espero que instantes como os que descreveu, em que se abrem fissuras nesse mundo "particular" e podemos então sentir o mundo de "verdade", sejam constantes, difícil imaginar que graça teria tudo se não fosse esses minimos momentos em que vemos um pouco de sentido.
Saudades daqui :)
Bjo.
Delicioso texto!
Adoro seu blog...
"Ele não sabia sobre qual hortaliça sua mão cairia, da mesma forma que ignorava a razão de estar ali, diante daquela barraca colorida de frutas, já que não precisava de nada daquilo. Talvez por desejar estar ao lado daquela desconhecida que era a mais bonita entre todas que já tinha visto."
Depois de ler isto, sei que estou no caminho certo.
O segredo é aguar a hortinha.
Lindo texto e blog.
Um beijo
Diogo
Amo ler as cartas para Amelie, sinto a importancia de te-la presente na minha vida. Mesmo quando fico arrumando a bagunca dos outros rsrsrs. Por outra lado ao ler este post lembrou-me de Cecilia Meireles.
para celebrar esse momento saboreio Les desserts du chocolatier gout creme brulee ( meu preferido!).
Bj continue escrevendo.
nossa lindo texto...bom saber que ainda existem românticos incuráveis!ahauhahua
bjusx
Grades referências...
Drummond e Magritte...
beijos e gentileazas...
Leca
Eu estava com saudades dessas belíssimas cartas... Sou sua fã!! Casa comigo?! Rsrsrs Brincadeira... Voltarei sempre para bisbilhotar!!
Adorei as cartas!!! Querida Amelie está nos meus favoritos agora e de novo. Ótimas correspondências!!!
Amei sua carta à Amélie!
"Eu me dou conta do quanto estou só."
q lindeza , gente !
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