sexta-feira, 30 de abril de 2010



Querida Amélie,

O verde das árvores contra o céu azul do outono. As silhuetas das pessoas pela cidade que passa veloz. Dois ou três olhares femininos contra o meu, absorto. Meus pensamentos, meus pesos e medidas, minha vida de adulto. Tento não pensar, num esforço de estar presente sentindo a vida em mim e o movimento ao meu redor. Sem que eu tenha controle, algumas lágrimas elegantes rolam pelo meu rosto cansado. Os pensamentos voltam e são como uma turbina de avião decolando. Eu me dou conta do quanto estou só. A vida continua a passar pela janela do ônibus, mas sinto como se estivesse num outro plano. Passo a observar tudo com a máxima atenção. As coisas ganham uma dimensão inesperada, como se uma lente de aumento fosse colocada sobre cada uma delas. Os detalhes sobre os quais se passa despercebido passam a ter muita importância num momento como este: a ruga da senhora sentada ao lado, o desleixo de um adolescente que se levanta, um pequenino inseto que se debate contra a lâmpada suja, uma ranhura no metal onde se lê uma declaração de amor. Coisas mínimas, particulares, universais que dão mais sentido ao instante e trazem mais alegria à vida. Um sorriso nasce no meu rosto como a flor de Drummond nasceu no asfalto ou como o beijo (des)velado de Magritte, ou ainda como a história que será escrita um dia:


"Ele não sabia sobre qual hortaliça sua mão cairia, da mesma forma que ignorava a razão de estar ali, diante daquela barraca colorida de frutas, já que não precisava de nada daquilo. Talvez por desejar estar ao lado daquela desconhecida que era a mais bonita entre todas que já tinha visto ou talvez por uma vontade do acaso que o fez enxergá-la entre os prédios da cidade. Não importava muito, porque estavam ali, lado a lado, e ele podia sentir o perfume dela se sobrepondo ao das frutas maduras. Displecentemente, permitiu-se apanhar uma pêra estragada, sendo imediatamente interrompido pelo toque suave dela que já escolhia uma fruta boa. Nesse instante mínimo, seus sorrisos compartilharam a possibilidade de uma vida juntos."

10 comentários:

Mademoiselle disse...

É estranho morar em um mundo que apenas nós conhecemos e que não fica em outra dimensão, fica aqui mesmo.
Espero que instantes como os que descreveu, em que se abrem fissuras nesse mundo "particular" e podemos então sentir o mundo de "verdade", sejam constantes, difícil imaginar que graça teria tudo se não fosse esses minimos momentos em que vemos um pouco de sentido.
Saudades daqui :)
Bjo.

Fabi Pessanha disse...

Delicioso texto!
Adoro seu blog...

Pipa. A que ama. disse...

"Ele não sabia sobre qual hortaliça sua mão cairia, da mesma forma que ignorava a razão de estar ali, diante daquela barraca colorida de frutas, já que não precisava de nada daquilo. Talvez por desejar estar ao lado daquela desconhecida que era a mais bonita entre todas que já tinha visto."



Depois de ler isto, sei que estou no caminho certo.
O segredo é aguar a hortinha.


Lindo texto e blog.


Um beijo

Juliana Reis disse...

Diogo
Amo ler as cartas para Amelie, sinto a importancia de te-la presente na minha vida. Mesmo quando fico arrumando a bagunca dos outros rsrsrs. Por outra lado ao ler este post lembrou-me de Cecilia Meireles.
para celebrar esse momento saboreio Les desserts du chocolatier gout creme brulee ( meu preferido!).
Bj continue escrevendo.

Vitória disse...

nossa lindo texto...bom saber que ainda existem românticos incuráveis!ahauhahua

bjusx

Leca disse...

Grades referências...
Drummond e Magritte...
beijos e gentileazas...
Leca

Julia disse...

Eu estava com saudades dessas belíssimas cartas... Sou sua fã!! Casa comigo?! Rsrsrs Brincadeira... Voltarei sempre para bisbilhotar!!

Edione Soares disse...

Adorei as cartas!!! Querida Amelie está nos meus favoritos agora e de novo. Ótimas correspondências!!!

disse...

Amei sua carta à Amélie!

"Eu me dou conta do quanto estou só."

Anônimo disse...

q lindeza , gente !