
Querida Amélie,
Se somos os únicos responsáveis por nossas escolhas, seria verdade que os louros (ou os fracassos) advindos dessas escolhas são única e exclusivamente nossos? Parece meio óbvia a resposta (ou idiota a pergunta), mas se você refletir um pouco verá que nem tanto. Tenho reparado com esmerada atenção na maneira como as pessoas do meu convívio agem, principalmente quando se trata de "receber os frutos". É incrível o quanto se aprende só observando as pessoas! Não é nenhuma novidade que sou um voyer assumido, mas, cá entre nós, quando se observa as pessoas de perto, bem de perto, a coisa ganha estatus de intimidade. Passamos a nos tornar íntimos das pessoas com as quais mantemos uma relação de observância. É um observar que está mais para uma escuta silenciosa e atenta, como se não olhássemos mais para os pequenos detalhes, mas passássemos a escutar com todo o corpo cada mínimo gesto, cada pensamento não expressado, cada dúvida que se transforma em certeza ou vice-versa. E a partir daí, dessa escuta atenta do outro, passamos a compreender melhor a nossa própria maneira de agir e como isso afeta o nosso convívio. Porque não dizer que passamos também a gostar mais (ou menos) dessas pessoas?! No meu caso, o resultado dessa minha curiosidade espiã sobre as pessoas do meu convívio foi a compreensão de que eu, sozinho, não tenho muitos méritos a serem contabilizados. Não pense que isso é ruim, muito ao contrário, já que, na "pior" das hipóteses, percebi que tenho muito a agradecer à vida pelo que aprendi com as pessoas. Foram - são! - essas pessoas que contribuem para que as minhas escolhas deem certo (ou não). Claro que as escolhas são minhas, únicas, intransferíveis, e que a coragem para tanto também é somente minha, mas realmente não posso dizer que o sucesso ou fracasso advindo delas seja só meu. É um compartilhar eterno. Mesmo assim - e isso é o que mais me intriga e fascina -, não posso responsabilizar ninguém pelo sucesso ou fracasso. É meu, mas não é, entende? É o que chamam de Paradoxo. Alguns Paradoxos realmente me fascinam (e assustam). Mas antes que isso vire outra carta, paro por aqui. Apenas dizer o final da minha equação: passei a gostar mais, muito mais, das pessoas com quem convivo e posso dizer que de mim mesmo também. Sem essas pessoinhas com todas as suas esquisitices, eu não teria chegado na esquina ou me tornado metade do que sou.

6 comentários:
Bela homenagem aos que fazem parte da sua vida, e de suas escolhas pessoais por conseguinte.
Lindo, lindo texto.
Claro, delicado e inspirador.
Beijo
Concordo com a Ana. E essa pergunta passa por minha cabeça, mas em vés de procurar os responsáveis pelos acontecimentos em minha vida, faço aqui uma auto-análise.
:)
É, eu tb acho estranho como as pessoas podem fazer parte de nossas vidas sem ao menos perceberem, é terrivelmente maravilhoso! ^.^
Perfeito Diogo, como sempre =D
Sem essas "pessoinhas", não seriamos completos, talvez nem tentariamos ser completos. Quando algo se completa dentro da gente, temos a certeza que foi culpa de alguém, rs. É sempre assim!
Lindo seu blog! Irei voltar.
Tenha uma quarta cheia de luz!
Como sempre gosto de bisbilhotar textos pela internet, e achei o teu, difícil hoje achar alguém que escreva tão bem (ou simplesmente escreva) e pense desta maneira, ótimo texto, e espero que sua inspiração continue sempre, pois não é só o fato de escrever, mas o que se escreve. Como um dia eu escrevi: "Continuamos os mesmo, com as metas traçadas sujeitas a mudança constantemente; buscamos o correto com a sensação da derrota e a cada tentiva consecutivamente; apostamos e nos auto-doamos do nosso melhor, mas inconscientemente dominado pelo próprio medo".
beijos.
Duda Beilke.
"pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever? (...) Se for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples 'Preciso', então construa sua vida de acordo com tal necessidade; sua vida tem que se tornar, até na hora mais indiferente e irrelevante, um sinal e um testemunho deste impulso."
citando rilke, sugiro que substitua "escrever" por "observar" e se aproprie da adaptação.
bjos
Postar um comentário