quarta-feira, 28 de outubro de 2009



Querida Amélie,

Quando percebi Chloè me olhando com aqueles imensos olhos azuis de mangá, meu coração deu um salto e eu não consegui fazer nada mais a não ser encarar aquela criatura divina a minha frente. Fiquei hipnotizado e quando me dei conta, já tinha me perdido dos meus amigos. Lá estava eu, perdido no coração de Passo Fundo - cidade perigosa para os mancebos distraídos -, aturdido pela beleza rara e delicada daquela gata branca, sem saber ao certo pra que lado eu deveria ir. Sem hesitar, empurrei a porta de vidro que nos separava e me aproximei de Chloè. Com um salto leve, colocou-se aos meus pés e se deixou acariciar. Ao tocar seu pelo macio, percebi que aquela gata encarnava toda a beleza da mulher gaúcha: uma beleza clara, luminosa, sem nenhum tipo de subterfúgio; depois de ter conhecido Chloè, digo sem receio: As mulheres gaúchas são as mais belas do Brasil! (e se considerar que a mulher brasileira é a mais bonita do mundo - e é mesmo! -, a mulher gaúcha é a mais bonita do mundo!) Mas o que eu não tinha ideia é que aquela pequena criatura me mostraria muito mais do que a sua elegante beleza: Sem nenhuma reserva, Chloè me apresentou ao seu mundo onde cada mínimo detalhe destoava do mundo maior. Roupas, Acessórios, Bottons, Ímãs, e toda uma série de objetos que despertavam mais do que desejo, despertavam paixão. Aquele era o mundo de Chloè e ele se chamava Valentine. Deixei-me ficar ali um longo tempo, eu diria séculos! Toquei em cada coisa que me foi permitida, busquei conhecer cada detalhe, cada beco e corredor de Valentine, cada textura de suas fronteiras. Estar ali era mais do que conhecer uma loja estilosa, escondida numa rua de uma bela cidade gaúcha; estar ali era como experimentar um pouco da alma feminina - a alma da mulher mais linda do mundo. Uma pena que a arquiteta de tudo estivesse viajando, que não pudesse me contar o porquê de tudo aquilo, como construiu um mundo tão perfeitamente lindo. De qualquer forma eu passei um dos melhores momentos da minha viagem ali em Valentine, ao lado de Chloè e das coisas todas femininas. Claro que havia algum tanto de masculino, umas camisas ultra legais, uns Bottons, tal, mas nada que chegasse aos pés de qualquer coisa de mulher. E eu, claro, trouxe uma camisa com um retrato seu, Amélie, de quando você era criança e comia displicentemente aqueles morangos (eram morangos?) com o dedo. Também trouxe um botton enorme (que vou transformar em ímã pra minha geladeira) da Audrey Hepburn no filme Bonequinha de Luxo. Aquela clássica imagem dela com a piteira de cigarro. Depois eu conto mais da minha viagem, de como foi bom participar da famosa Jornada da Literatura de Passo Fundo, um evento trilegal que agrega escritores e artistas de todo o Brasil e alguns do mundo. Mas essas ficam pra depois, porque no momento ainda estou em Valentine com Chloè.



Chloè


Valentine



Audrey Hepburn -
Bonequinha de Luxo

quinta-feira, 8 de outubro de 2009



Querida Amélie,

O perigo em casos de moços enamorados que seguem seus impulsos é o de não conseguirem controlar seus espamos e torções; nesses casos, podem adquirir um torcicolo ou - o que é pior - um nervo pinçado - daqueles que duram duas semanas ou mais e os fazem lembrar a cada fisgada de dor dos cabelos femininos e cheirosos que passavam. Quando isso acontece, é preciso que tenham calma e paciência, não tanto pelo sofrimento causado pela dor incômoda (que às vezes é aguda), mas principalmente pelo vazio solitário, decorrente da lembrança do ser etéreo, fugaz, feminino. Nas horas mais críticas da dor, toda lembrança que possuem se liquefaz em suspiros desejosos, imprecações mal criadas, queixumes sem sentido. O ser amante é mesmo atraído pelo sofrimento e nele se deleita. Um fragmento de discurso amoroso que se preze deve conter no seu cerne o registro da história vivida, mesmo que seja aquele representado pela fala de apenas uma das partes amantes, talvez dissesse Roland Barthes para moços que padecessem desse mal; ou ainda: Quando o discurso tenta reproduzir o embargo da voz, o tortuoso som que preenche o ar e revela o que está além de uma nervo pinçado, é que somos capazes de compreender minimamente o que se passa no íntimo do ser-amante: o coração partido.