sábado, 11 de fevereiro de 2012


Querida Amélie,

A Lua é o espelho dos poetas e dos amantes. Mesmo que estejam longe, sempre poderão se ver como se contemplassem suas imagens na superfície calma de um lago brilhante. Aqui estou, desse lado do céu, a enxergar você aí, do outro lado, que me olha nos olhos, e assim nos vemos... Da minha janela, o horizonte é vasto e posso ver tudo o que meus olhos imaginarem: de cavalos trotando em campinas distantes a crianças trocando segredos, dentes-de-leão desprendendo-se com o vento e (por que não?) o seu olhar perdido no horizonte além da sua janela. Mas é somente quando olho dentro dos olhos da Lua que enxergo os olhos do ser que me contempla, profundamente. Dentro de nós, então, forma-se um rio que corre nos dois sentidos, carregando para um e para outro nossos melhores sentimentos. Olho para a Lua e sinto-me escorrer de encontro a essa força até desaguar-me por completo no silêncio da noite ancestral. Imersos, saberíamos dizer em qual oceano? Em que olhar desaguamos?



O Rio da Lua


Lavo meu peito em fogo líquido

Escorro soberbo

arrastando cascalhos

removendo entulhos

Sei que estou virando um rio

O vento sopra do extremo oásis

onde ninfas dançam entre flores raras

A campina verdejante exibe pérolas de orvalho

O sol

Imagino-me uma espécie de antúrio selvagem

porque pareço invisível

Sigo veloz alargando a margem

acumulando musgos

no movimento eterno de percorrer o caminho

Do outro lado do céu

rasgando o tecido escuro

a água escorre carregando estrelas em sua queda

estupenda

infinita

lavando o fogo em vida líquida.

Diogo Borges

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012



Querida Amélie,

Se bem me lembro, havia uma garota perdida. Sob a copa dos grandes prédios, ela fugia do lobo que devorava o tempo. Se quiser saber o porquê, feche os olhos e ouça o que vou narrar.


***

Ela nunca havia visto o monstro, mas sabia que ele existia pelas histórias que as outras contavam. Uma das mais famosas dizia que o bicho se infiltrava no corpo e devorava toda a juventude. Em algumas versões, ele dilacerava os seios por dentro fazendo com que eles se rompessem. Mas havia uma versão apócrifa que dizia ser o lobo uma invenção para vender medo, pois quem tinha medo era capaz de comprar qualquer lâmpada achando que possuía o sol. E pagavam caro por isso. A garota perdida preferia acreditar nas histórias em que ele, sedento, perseguia durante anos a fio as garotas perdidas. E, assim, ela corria e corria pela vida opaca. Até o dia em que ela topou com um moço alto e louro. Seus olhos eram azuis, quase transparentes, e seus dentes brancos. Por alguma razão inexplicável, ela conhecia aquele moço e sabia que o seu nome era Príncipe. Então ela se lembrou que sua vovozinha, há muito morrida, havia lhe contado sobre moço igual. Sua voz penetrava nos ouvidos das garotas e fazia o lobo desaparecer por um tempo. Ela acreditou profundamente nisso e se jogou nos braços desse encanto. Era uma vez uma garota que não estava mais perdida e que não precisava correr. Um dia, porém, ela se deitou ao lado do seu Príncipe sentindo-se inexplicavelmente vigiada por olhos internos. Apesar do incômodo, dormiu e, ao acordar, constatou horrorizada que havia uma montanha no lugar de sua barriga, e que o moço louro ao seu lado era peludo, roncava e fedia a mofo. Finalmente ela entendeu as histórias que as outras contavam, mas o que mais a assustou foi a certeza de que o lobo nunca existiu até aquele momento. Como nunca antes, ela correu do monstro. Andando até a penteadeira - herança de sua vovozinha -, ela cantarolou uma canção de sua juventude enquanto sentia o prateado que iluminava sua cabeça arrancar a tinta dos seus belos cabelos negros. E todos foram felizes para sempre.

sábado, 14 de maio de 2011


Querida Amélie,

Meu blog novo: www.cinzasdeincenso.blogspot.com

Saudade.

Beijos meus

Ps: Desculpe pelo telegrama. Em breve volto com as cartas.